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Service Profit Chain: a cadeia de serviço-lucro e seus elos

Por Tomás Duarte em 14 de maio 2025
Teoria e Prática de CX

Tempo de leitura: 10 minutos

A relação entre funcionários engajados, clientes satisfeitos e resultados financeiros sólidos é há muito discutida no mundo dos negócios. No contexto atual, empresas de tecnologia e saúde — setores onde o fator humano é determinante — têm aplicado com sucesso a lógica da Service Profit Chain (Cadeia de Serviço-Lucro) para impulsionar o desempenho.

Este artigo explora em profundidade esse conceito, mostrando como investir na experiência do colaborador eleva a qualidade do serviço, gera satisfação e lealdade dos clientes e, por fim, impulsiona crescimento de receita.

Conceito da Service Profit Chain e seus elos

A Service Profit Chain é um modelo conceitual desenvolvido por pesquisadores da Harvard Business School nos anos 1990 (Heskett, Sasser, Schlesinger e colaboradores), que estabelece elos claros entre diferentes fatores operacionais e o lucro em empresas de serviços . Em resumo, a cadeia propõe que:

  • Qualidade do ambiente de trabalho e investimento interno (processos eficientes, treinamento, ferramentas adequadas e clima organizacional positivo) levam a colaboradores satisfeitos e produtivos.
  • Colaboradores satisfeitos/engajados prestam um serviço de melhor qualidade, com mais atenção, competência e cordialidade no atendimento.
  • Serviços de alta qualidade resultam em clientes satisfeitos, pelo valor superior que percebem em sua experiência.
  • Clientes satisfeitos tendem a se tornar fiéis/leais, aumentando retenção, compras repetidas e recomendando a empresa a outros.
  • Lealdade do cliente impulsiona receita crescente e lucratividade sustentável para o negócio.

Em outras palavras, o lucro em empresas de serviços é construído “de dentro para fora”: começa com funcionários satisfeitos e culmina na fidelidade do cliente e no crescimento financeiro. Essa lógica contrasta com visões tradicionais que focam apenas em metas de vendas ou participação de mercado; gestores orientados pela cadeia serviço-lucro entendem que o desempenho financeiro é consequência, não ponto de partida .

Evidências da relação entre colaboradores engajados e resultados

Múltiplos estudos e casos práticos dão suporte a cada elo dessa cadeia, tornando-a mais que teoria abstrata. Pesquisas clássicas já demonstravam correlações impressionantes entre satisfação de funcionários e desempenho financeiro.

Por exemplo, em redes de fast-food, unidades com menor rotatividade (indicativo de funcionários mais satisfeitos) alcançaram resultados superiores: nos restaurantes Taco Bell analisados por Heskett et al., os 20% de unidades com menor turnover dobraram as vendas e obtiveram 55% mais lucro em comparação aos 20% com maior turnover. 

De modo semelhante, uma análise de 800 lojas da Sears mostrou que uma melhoria de 5 pontos no índice de clima dos funcionários gerou aumento de 1,2 ponto na satisfação dos clientes e incremento de 5% nas receitas. Esses números reforçam quantificadamente o impacto da satisfação interna no comportamento do consumidor e no faturamento.

Imagem mostra dois homens brancos sorridentes sentados à mesa em um ambiente de escritório. à direita, lê-se o texto: Empresas reconhecidas por excelentes ambientes de trabalho tendem a prosperar financeiramente. Companhias listadas entre as “100 Melhores Empresas para Trabalhar” nos EUA consistentemente superaram o mercado em 3,5 vezes em retorno acumulado aos acionistas.

Em outras palavras, apostar na experiência do colaborador não é apenas “certo a se fazer” do ponto de vista humano – é uma estratégia de negócios inteligente, associada a crescimento acima da média. 

Até mesmo custos são impactados: no setor hospitalar, sabe-se que engajamento reduz rotatividade e gastos relacionados. Em um hospital, uma iniciativa focada em melhorar a satisfação dos pacientes (o que envolve engajar a equipe assistencial) levou a queda de 4,7% na taxa de turnover dos funcionários (caso real documentado pela Agency for Healthcare Research and Quality (AHRQ), mesma criadora do HCAHPS), economizando milhares de dólares em contratações e treinamentos e, ao mesmo tempo, elevando a qualidade do atendimento.

Também há consenso qualitativo de líderes experientes. Segundo a diretora de RH do SAS Institute, “um ótimo ambiente de trabalho nasce de ouvir os funcionários e cultivar confiança; quando eles têm voz, sentem-se valorizados e veem propósito no que fazem, ficam felizes e engajados”. E conforme destacado pela Cleveland Clinic, uma das instituições de saúde mais renomadas do mundo, uma força de trabalho engajada “está ligada a maior satisfação de pacientes, segurança e qualidade, bem como melhor retenção de funcionários”. Tais depoimentos corroboram que o alinhamento entre cultura organizacional, colaboradores motivados e resultados de negócio é percebido na prática.

Aplicação no setor de tecnologia: colaboradores em primeiro lugar

No setor de tecnologia, onde o capital humano altamente qualificado é fundamental para inovação e atendimento consultivo, a Service Profit Chain encontra terreno fértil. Empresas de tecnologia pioneiras entenderam cedo que valorizar o funcionário é catalisador de sucesso. 

Um caso emblemático é o SAS Institute, gigante de software de análise de dados. O SAS adotou uma filosofia de investir pesado no bem-estar e desenvolvimento de seus profissionais — e colhe os frutos disso há décadas. Em 2009, por exemplo, o SAS registrou receita de US$ 2,31 bilhões, marcando seu 33º ano consecutivo de crescimento e lucratividade, algo raro no volátil mercado de software. Os executivos atribuem diretamente esse desempenho à lealdade e alta performance dos funcionários, reforçando que o sucesso da empresa “está diretamente ligado a como tratam seus colaboradores”.

Os números internos do SAS ilustram como um ótimo clima se traduz em vantagens competitivas: a taxa de rotatividade anual de funcionários é inferior a 4%, enquanto no setor de software gira em torno de 20%. Essa retenção extraordinária economiza milhões em recrutamento e treinamentos, e preserva conhecimento crítico na empresa. 

Com equipes estáveis e engajadas, o SAS mantém relacionamentos duradouros com clientes e consegue inovar constantemente. Não por acaso, a empresa figura desde a primeira edição no ranking de Melhores Empresas para Trabalhar e foi Nº1 na lista dos EUA em 2010. O próprio Google, famoso por seus benefícios, visitou o campus do SAS anos atrás para se inspirar em práticas de gestão de pessoas.

Essa cultura “employee-first” do SAS também provou resiliência: durante a crise de 2008-09, o CEO Jim Goodnight prometeu zero demissões, optando por proteger empregos e confiar no retorno em lealdade. Ele declarou que, em troca dessa postura, a empresa foi recompensada com “lealdade dos funcionários e sucesso nos negócios”. De fato, o SAS continuou crescendo nos anos seguintes, atingindo em 2015 a marca do 40º ano consecutivo de aumento de receitas.

Outras companhias de tecnologia adotaram abordagens semelhantes. A Microsoft, desde 2014 (Satya Nadella é o atual diretor executivo da Microsoft, nomeado CEO no dia 4 de fevereiro de 2014 por Bill Gates, sucedendo Steve Ballmer), passou por uma transformação cultural sob nova liderança, promovendo mentalidade de crescimento, colaboração e empatia. Isso revitalizou a moral interna e a capacidade inovadora, contribuindo para a valorização expressiva da empresa no mercado nos anos seguintes.

Já empresas nativas digitais, como Salesforce e HubSpot, são conhecidas por vincular métricas de sucesso de clientes (Customer Success) a incentivos internos, de modo que equipes de produto e atendimento trabalhem motivadas a entregar valor contínuo. Em todos esses casos, a premissa é alinhada à cadeia serviço-lucro: colaboradores satisfeitos criam clientes satisfeitos. 

Vale notar que muitas das empresas de tecnologia com crescimento mais rápido costumam figurar em rankings de clima organizacional, evidenciando que a correlação observada por pesquisas (como a do FTSE Russell citada), de fato, se manifesta nesse setor. Em suma, na tecnologia, a inovação acontece pelas pessoas e empresas que investem na experiência do colaborador – seja via ambientes de trabalho inspiradores, benefícios, planos de carreira ou cultura de reconhecimento — obtêm melhor serviço/produto, maior fidelização dos clientes e desempenho financeiro superior em relação aos pares.

Aplicação no setor de saúde: cuidado com quem cuida

No setor de saúde, a lógica da Service Profit Chain é igualmente crítica, dada a influência direta dos profissionais na experiência e segurança do paciente. Hospitais e empresas de saúde que focam no engajamento de médicos, enfermeiros e demais colaboradores conseguem melhorar indicadores assistenciais e resultados institucionais.

A Cleveland Clinic, referência mundial em qualidade médica, ilustra bem essa relação. A instituição implementou, já em 2008, um programa massivo de engajamento onde cada funcionário, do porteiro ao cirurgião, passou a ser considerado um “cuidador” responsável pela missão de colocar “pacientes em primeiro lugar”. Essa mudança cultural, aliada à criação do cargo de Chief Experience Officer, reforçou o treinamento em servant leadership (liderança servidora) e reconhecimento interno. Os resultados incluíram uma melhoria consistente nos índices de engajamento dos funcionários e reflexos positivos na satisfação dos pacientes e qualidade assistencial.

Imagem de fundo verde com o texto: Pontuação geral de engajamento dos funcionários da Cleveland Clinic: 2008: 3,80 2013: 4,25

Hoje, a Cleveland Clinic afirma com convicção que um time engajado “faz toda a diferença no cuidado ao paciente” e se traduz em segurança e qualidade maiores. Em outras palavras, cuidando bem de seus caregivers, o hospital assegura que estes cuidarão bem dos pacientes. Esse enfoque também ajuda a reter talentos na linha de frente da saúde, um fator crucial especialmente durante crises (como a pandemia), quando 1 em cada 4 profissionais cogitou deixar o emprego por exaustão. A Cleveland Clinic combateu esse risco ouvindo ativamente as necessidades dos colaboradores e conectando-os com o propósito institucional, gerando comprometimento mesmo em tempos difíceis.

No contexto de saúde brasileiro, também vemos exemplos alinhados a essa lógica. Diversos hospitais de excelência no país, como o Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, destacam-se não só pelos resultados clínicos, mas pelo ambiente de trabalho. O Einstein esteve, por vários anos, entre as melhores empresas para se trabalhar no Brasil, graças a iniciativas de desenvolvimento profissional e qualidade de vida. Essa valorização interna reflete-se na excelência percebida pelos pacientes e parceiros — tanto que o Einstein figura como um dos hospitais de melhor reputação e resultados financeiros estáveis da América Latina.

Outro exemplo é a Rede D’Or São Luiz, maior rede hospitalar privada do Brasil, que publicamente atribui seu sucesso ao “foco em atendimento humanizado, qualificação da equipe e adoção de novas tecnologias” para melhorar a experiência do paciente. Ao alinhar rápida expansão com padrões de cuidado, a Rede D’Or enfatiza a uniformização de práticas e engajamento de milhares de colaboradores para sustentar seu crescimento.

Esses casos nacionais indicam que, mesmo diante de desafios locais (custos, alta demanda, regulação), organizações de saúde que investem no bem-estar dos profissionais obtêm melhor atendimento e fidelização, o que contribui para reputação e crescimento no longo prazo.

Caso brasileiro – Nubank: cultura de excelência orientada ao cliente e colaborador

Para exemplificar a aplicação da cadeia de serviço-lucro em uma empresa brasileira, destaco o Nubank, fintech de origem nacional que se tornou uma das instituições financeiras digitais líderes no mundo. Embora do setor financeiro, o Nubank opera essencialmente como uma empresa de tecnologia voltada a serviços bancários — e sua trajetória de crescimento explosivo está vinculada a uma cultura centrada em pessoas, tanto clientes quanto funcionários. Desde sua fundação, o Nubank colocou como valor principal “encantar o cliente” em cada interação e para viabilizar isso construiu uma cultura interna forte, focada em autonomia, inovação e eficiência.

Os resultados falam por si. Em 2023, o Nubank atingiu a marca de 100 milhões de clientes na América Latina, sendo 85 milhões no Brasil. Nos dois anos anteriores, o número de usuários dobrou e a receita quintuplicou para cerca de US$ 1,9 bilhão trimestral. Mesmo com a expansão acelerada, a empresa mantém altos índices de satisfação. Um relatório da Bain & Company (NPS Prism 2022) indicou que o Nubank foi a instituição financeira mais recomendada pelos clientes no Brasil. 

Como isso é possível? Segundo a cofundadora Cristina Junqueira, “não há decisão na empresa sem considerar o impacto no cliente” e a eficiência operacional conquistada é reinvestida em melhorias de serviço para oferecer experiências superiores. Essa mentalidade só ganha vida graças a colaboradores empoderados e alinhados com a missão.

O Nubank orgulha-se de uma cultura onde os times têm voz ativa, trabalham com propósito e perseguem o objetivo de “fazer os clientes amarem fanaticamente” o serviço. Programas internos de treinamento e uma estrutura organizacional horizontal facilitaram escalar o atendimento sem perder qualidade. Ao manter um custo de serviço 85% inferior ao dos bancos tradicionais (via digitalização) e simultaneamente investir em inovação e atendimento incomparável, o Nubank conquistou vantagens competitivas difíceis de igualar.

Em termos financeiros, a fidelização gerada por essa abordagem gerou monetização crescente: clientes antigos do Nubank hoje geram em média US$ 24 de receita mensal cada (contra US$ 9 da média da base), evidenciando o valor de longo prazo do cliente satisfeito. Com esse engajamento, o Nubank obteve aumento de 53% no lucro líquido no segundo trimestre de 2023. 

Trata-se de um círculo virtuoso típico da Service Profit Chain aplicado em solo brasileiro: uma “startup” que investiu intensamente em cultura e pessoas, colhendo crescimento vertiginoso de clientes leais e rentáveis. O case Nubank demonstra que os princípios da cadeia serviço-lucro não se restringem a empresas tradicionais de serviços, mas também impulsionam empresas de tecnologia disruptivas — e que no Brasil é viável construir organizações globais de sucesso fundamentadas na satisfação de colaboradores e clientes.

Por fim, a lógica do Service Profit Chain se mostra atemporal e aplicável em múltiplos contextos. Nos setores de tecnologia e saúde, onde interações de serviço e conhecimento especializado são o coração do negócio, essa cadeia ganha relevância estratégica. Os casos discutidos — de gigantes globais como SAS e Cleveland Clinic a organizações brasileiras inovadoras como o Nubank — comprovam que investir na experiência do colaborador não é custo, e sim investimento com retorno tangível. Colaboradores engajados prestam um serviço melhor, constroem relacionamentos sólidos com clientes e impulsionam indicadores de satisfação. Clientes satisfeitos permanecem mais tempo, consomem mais serviços e indicam novos clientes, alimentando o crescimento sustentável da receita.

Importante destacar que seguir a Cadeia de Serviço-Lucro exige comprometimento genuíno da liderança e visão de longo prazo. Implica criar uma cultura de confiança, ouvir continuamente a equipe e alinhar políticas (remuneração, treinamento, reconhecimento) para reforçar o elo entre funcionários e objetivos da empresa. 

Empresas que conseguem fazer isso, mesmo em cenários adversos, tendem a construir marcas empregadoras fortes e vantagem competitiva difícil de ser imitada. Em um mercado onde tecnologias se comoditizam rapidamente, a experiência torna-se o diferencial — e essa experiência nasce da combinação entre pessoas motivadas e processos bem desenhados.

Portanto, seja uma startup de software ou um grande hospital, a lição permanece: colocar funcionários e clientes no centro da estratégia é a melhor receita para crescer. Os números e casos reais apresentados servem de evidência e inspiração. A Service Profit Chain não é apenas uma teoria de livro-texto, mas uma realidade observável nas empresas de maior destaque. Como vimos, cultivar um ciclo virtuoso de satisfação — do colaborador ao cliente, do cliente ao lucro — é um caminho seguro para alcançar excelência em serviço e resultados financeiros superiores de forma sustentada. Em resumo, investir nas pessoas vale a pena: faz da empresa um lugar melhor para trabalhar, um lugar melhor para o cliente comprar e, inevitavelmente, um negócio mais próspero e resiliente.

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